A MISTERIOSA CHAMA DA RAINHA LOANA
A Misteriosa Chama da Rainha Loana
Uma odisseia ilustrada pelas brumas da memória e da cultura pop
Publicado em 2004, A Misteriosa Chama da Rainha Loana é, talvez, a obra mais pessoal e emocional de Umberto Eco. Diferente da densidade semiótica de seus livros anteriores, este romance utiliza uma narrativa visual — repleta de ilustrações, cartazes de propaganda, selos e páginas de bandas desenhadas — para explorar como a nossa identidade é construída não apenas pelos fatos que vivemos, mas pela cultura que consumimos.
A trama acompanha Giambattista Bodoni, conhecido como Yambo, um alfarrabista de Milão que sofre um "acidente" cerebral e perde a memória autobiográfica. Ele se lembra de tudo o que leu (a memória semântica), mas nada sobre sua própria vida, sua esposa ou seus filhos. Na tentativa de recuperar o seu passado, Yambo retira-se para a casa de campo de sua infância em Solara. Lá, entre caixas de velhos jornais e revistas da era fascista, ele tenta reconstruir o que sentia ao som das canções de rádio e das aventuras de heróis de papel.
Eco tece uma reflexão brilhante sobre a Itália da Segunda Guerra Mundial e o poder da memória coletiva. O título, extraído de um álbum de banda desenhada dos anos 30, simboliza essa "chama" da descoberta e da paixão que o protagonista busca desesperadamente reacender para saber, finalmente, quem ele realmente é.
O Labirinto dos Papéis
A obra é um deleite para os amantes de livros e colecionadores. Eco demonstra como as imagens que vemos na infância moldam a nossa percepção de mundo. O livro não é apenas um texto, é um objeto de arte que convida o leitor a folhear a história da Itália através de seus detritos culturais.
Diferente da frieza intelectual que alguns atribuem ao autor, aqui encontramos um Eco vulnerável, que fala sobre o envelhecimento e a perda com uma ternura melancólica, lembrando-nos que somos feitos de tudo o que esquecemos.