AQUELE RAPAZ
Aquele rapaz: A Memória em Terceira Pessoa
Jean-Claude Bernardet e a desconstrução do "eu" biográfico.
Em Aquele rapaz, Jean-Claude Bernardet subverte a autobiografia tradicional. Ao falar de sua infância na França e sua juventude, ele não utiliza o "eu", mas refere-se a si mesmo como "aquele rapaz". Esse distanciamento permite uma investigação quase clínica e, ao mesmo tempo, profundamente sensível sobre a construção de uma identidade atravessada por deslocamentos geográficos e sexuais.
A Escrita como Espelho Oblíquo
Bernardet, conhecido por sua lucidez teórica no cinema, traz para a literatura a mesma capacidade de montagem. O livro funciona como um filme de arquivo, onde as cenas de "aquele rapaz" são observadas pelo homem maduro que ele se tornou. É uma obra sobre o estranhamento: o reconhecimento de que o passado é um país estrangeiro e nós somos seus visitantes.
"Aquele rapaz que corre pelas ruas de Paris não sou eu, mas é o único que posso ser quando olho para trás."
Ao final, Aquele rapaz é um convite para que cada leitor olhe para sua própria história com menos complacência e mais curiosidade. Bernardet prova que a verdade de uma vida não está na certeza dos fatos, mas na beleza e na dor da sua reconstrução imaginária.