AQUI ESTÃO AS MINHAS CONTAS
Aqui estão as minhas contas
A aritmética do cotidiano e a poesia do despojamento
Publicado em 1994, Aqui estão as minhas contas é uma obra fundamental para compreender o universo de Adília Lopes. A poeta portuguesa, conhecida por sua recusa às metáforas grandiloquentes, utiliza o título como uma declaração de intenções: a poesia aqui é um acerto de contas com a realidade, com a economia doméstica e com a própria identidade. Adília escreve a partir do rés-do-chão, transformando a banalidade da vida em Lisboa e os objetos mais triviais em matéria de reflexão existencial.
A escrita de Adília Lopes é marcada por um "fingimento de ingenuidade". Seus versos parecem simples, quase infantis ou confessionais em excesso, mas escondem uma ironia corrosiva e uma erudição que subverte as convenções literárias. Em Aqui estão as minhas contas, ela explora a precariedade, as relações familiares e a solidão feminina com uma crueza que incomoda e fascina. Não há espaço para o "sublime" tradicional; a beleza reside na honestidade brutal e no humor que surge do reconhecimento das nossas limitações e pequenas neuroses.
Ler Adília é entrar em um jogo de espelhos onde o "eu lírico" se confunde com o "eu biográfico" para questionar o papel do poeta na sociedade de consumo. A obra reafirma a capacidade da poesia de sobreviver fora das torres de marfim, encontrando fôlego na cozinha, nas contas a pagar e na observação meticulosa do que os outros consideram insignificante. É um livro que ensina a ver o mundo sem lentes de aumento, aceitando a realidade com todas as suas arestas e imperfeições.
A Poesia no Trivial
"A poesia é o que resta quando se retira todo o luxo." Adília Lopes faz da economia vocabular e emocional sua maior ferramenta de impacto.
Nesta obra, a autora prova que a vida não precisa de enfeites para se tornar literatura, basta ter a coragem de apresentá-la tal como ela se conta.