ESTRELA DA TARDE
Estrela da Tarde
A serenidade lírica e a despedida poética de um mestre
Publicado em 1960, Estrela da Tarde é um dos últimos livros de poemas lançados em vida por Manoel Bandeira. A obra funciona como uma espécie de síntese e, ao mesmo tempo, uma despedida serena. Nela, o "poeta do cotidiano" e da "tísica" já não luta contra a morte, mas a aceita como uma companheira de longa data, transformando a melancolia em uma luz suave e outonal.
O livro reúne uma diversidade admirável de formas. Encontramos desde a poesia mais clássica e o rigor dos sonetos até a liberdade total do verso livre e as experimentações que beiram o concretismo. Bandeira transita entre a profunda reflexão existencial e o humor lúdico de seus "poemas de circunstância", mantendo sempre aquela simplicidade aparente que esconde uma técnica refinadíssima e uma sensibilidade aguçada.
Em Estrela da Tarde, o autor retoma temas que o acompanharam por toda a vida: a infância no Recife, os amigos perdidos, a solidão e o amor. No entanto, há um tom de "quietude" diferente de suas obras anteriores. Como a própria estrela do título (Vênus, que aparece ao entardecer), a poesia de Bandeira aqui brilha no limiar entre a luz do dia que se foi e a sombra da noite que se aproxima, reafirmando-o como o poeta mais humano da nossa literatura.
O Brilho Crepuscular
A poesia de Bandeira em "Estrela da Tarde" abandona qualquer traço de revolta para abraçar a plenitude do instante. Ele demonstra que a verdadeira sofisticação reside em falar das coisas mais simples com a profundidade de quem já viu o mundo sob muitas luzes.
Mesmo diante da proximidade do fim, o poeta não perde a sua capacidade de brincar com as palavras. A leveza bandeiriana é, talvez, a sua maior lição de vida e de literatura.