O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS
O Ano da Morte de Ricardo Reis
O regresso do heterónimo a uma Lisboa assombrada e melancólica
Publicado em 1984, O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma das obras mais eruditas e sofisticadas de José Saramago. O romance realiza um exercício literário audacioso: traz de volta ao Portugal de 1936 o médico Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, que regressa do Brasil após receber a notícia da morte do seu criador.
A narrativa desenrola-se numa Lisboa chuvosa e cinzenta, sob a sombra crescente do salazarismo e a ameaça do fascismo que se espalha pela Europa (com a Guerra Civil Espanhola no horizonte). Ricardo Reis instala-se num hotel e vive um tempo de espera e inércia, recebendo visitas periódicas do "fantasma" de Fernando Pessoa. Entre os encontros com o mestre morto e os seus envolvimentos amorosos com a empregada Lídia e a hóspede Marcenda, Reis assiste passivamente ao desenrolar da história.
Neste livro, Saramago dialoga magistralmente com a estética de Pessoa, utilizando a intertextualidade para questionar a relação entre o autor, a obra e o mundo real. É uma meditação profunda sobre a finitude, a passividade política e o papel do artista diante de uma realidade que desmorona, culminando num desfecho onde o criatura e o criador finalmente se fundem no silêncio da morte.
Simbologia Literária
A presença de Lídia como personagem central é uma subversão brilhante de Saramago. Enquanto na poesia de Pessoa ela era uma musa idealizada e clássica ("Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio"), no romance ela ganha corpo e voz como uma mulher real, trabalhadora e politizada, contrastando com a apatia intelectual de Ricardo Reis.
O diálogo constante entre o vivo-moribundo Reis e o morto-presente Pessoa cria uma atmosfera de "fantasmagoria" que permeia toda a obra, servindo como uma reflexão sobre como a literatura pode prolongar ou encerrar a existência.