O HOMEM DUPLICADO
O Homem Duplicado
Uma exploração labiríntica sobre a identidade e a alteridade
Publicado em 2002, O Homem Duplicado é uma das obras mais instigantes da fase madura de José Saramago. Partindo de uma premissa aparentemente simples, mas profundamente perturbadora, o Nobel português constrói um suspense metafísico que questiona a singularidade do ser humano em um mundo de reproduções em massa.
A trama acompanha Tertuliano Máximo Afonso, um professor de História entediado que, ao assistir a um filme banal, descobre um ator secundário que é a sua cópia exata — não um sósia, mas um duplicado idêntico até nos mínimos detalhes físicos. O que começa como uma curiosidade obsessiva transforma-se rapidamente em uma busca perigosa pela identidade, culminando em um jogo psicológico de espelhos onde as fronteiras entre o "eu" e o "outro" se dissolvem.
Com o seu estilo narrativo inconfundível, marcado pela ausência de pontuação convencional e pelo fluxo contínuo de pensamento, Saramago utiliza a ironia e a digressão filosófica para explorar o pavor da perda da individualidade. A cidade, descrita como um labirinto moderno e impessoal, serve de cenário perfeito para esta jornada onde o encontro com o duplo revela as fissuras da alma humana.
Dimensão Filosófica
Nesta obra, Saramago subverte o tropo clássico do "doppelgänger". Não se trata apenas de uma coincidência física, mas de uma provocação existencial: se existe alguém exatamente igual a nós, o que resta da nossa essência? A narrativa obriga o leitor a confrontar a fragilidade do ego.
O desfecho, um dos mais comentados da bibliografia do autor, encerra a história com uma nota de ironia sombria, sugerindo que, em um mundo de repetições, a verdadeira tragédia não é a diferença, mas a absoluta semelhança.