O LIVRO DO RISO E DO ESQUECIMENTO
O Livro do Riso e do Esquecimento
Uma variação musical sobre a memória, o erotismo e o poder
Publicado originalmente em 1979, enquanto o autor vivia no exílio na França, O Livro do Riso e do Esquecimento é a obra que rendeu a Milan Kundera a perda de sua cidadania tcheca. O livro não segue uma estrutura narrativa linear, mas funciona como uma composição musical: uma "novela em forma de variações" onde diferentes personagens e situações orbitam em torno dos mesmos temas existenciais.
A obra explora a luta do indivíduo contra o apagamento da história pelo regime comunista na então Tchecoslováquia. Kundera tece reflexões profundas sobre como o riso pode ser tanto um ato de libertação quanto uma manifestação do "kitsch" ideológico, e como o esquecimento é uma ferramenta de dominação política e emocional. Através de histórias que misturam o erótico, o político e o puramente filosófico, o autor questiona a leveza e o peso da existência.
Um dos episódios mais célebres narra como o dirigente comunista Clementis foi apagado de uma fotografia oficial, deixando para trás apenas o seu chapéu na cabeça do líder Gottwald. Para Kundera, este pequeno detalhe é a metáfora perfeita para a fragilidade da memória humana e a crueldade dos sistemas que pretendem reescrever o passado.
Análise Estética
Kundera utiliza o conceito musical da variação para demonstrar que a existência não é um destino, mas um conjunto de possibilidades. O riso dos anjos versus o riso do diabo é uma das distinções mais potentes do livro, tratando da diferença entre o entusiasmo cego e a ironia lúcida.
A escrita é marcada por uma clareza cortante e uma desilusão poética. Ler Kundera é confrontar a ideia de que o esquecimento pode ser um alívio, mas também a morte definitiva de nossa identidade.