TAMBÉM GUARDAMOS PEDRAS AQUI
Também guardamos pedras aqui
A desconstrução da épica e o eco das vozes silenciadas
Publicado em 2021, Também guardamos pedras aqui é um manifesto poético e político de Luiza Romão. Através de uma estrutura que emula os cantos da Ilíada, a autora promove um "ajuste de contas" com o cânone ocidental. Se na tradição homérica o foco reside na glória dos heróis e no clangor das espadas, Romão desloca o olhar para os escombros, para o corpo feminino como território de conquista e para a violência que fundamenta a nossa ideia de civilização.
A escrita de Luiza Romão é herdeira do slam e da performance, o que confere aos versos uma dicção urgente, rítmica e cortante. Personagens como Helena, Cassandra e Briseida deixam de ser meros pretextos para o conflito masculino e assumem a palavra para narrar o trauma e a resistência. A autora utiliza o mito como uma lente para ler o Brasil contemporâneo, traçando paralelos entre a Tróia em chamas e as tragédias cotidianas marcadas pelo patriarcado e pela herança colonial.
Ler esta obra é participar de uma demolição necessária. Vencedora do prêmio máximo da literatura brasileira, Luiza Romão prova que a poesia pode ser uma pedra — não apenas um projétil, mas um alicerce para novas narrativas. É um livro que exige fôlego e coragem, pois nos confronta com a ideia de que a história oficial é escrita com o sangue daqueles que não tiveram direito à fala. Aqui, o silêncio finalmente se quebra, e o que resta é o peso e a força da verdade recuperada.
A Escrita do Escombro
"falar é um modo de ferir o silêncio." Luiza Romão transforma o mito em carne e o verso em resistência.
Nesta obra, descobrimos que a história não é apenas o que se lembra, mas o que se escolhe não esquecer sob o peso das pedras.