TODA VIDA
Toda vida
A voltagem poética entre o doméstico e o erótico
Lançado em 2024, Toda vida: Poesia reunida celebra a trajetória de Angela Melim, uma das figuras mais fascinantes da cena contracultural brasileira surgida na década de 1970. Desde sua estreia com O vidro o nome (1974), Melim estabeleceu uma dicção única, onde a fronteira entre o sujeito e o mundo é borrada. Para ela, a paisagem exterior e os movimentos internos são uma coisa só; a observação de um objeto na cozinha possui a mesma carga existencial que um dilema da alma.
A escrita de Angela Melim é um exercício de atenção plena e sensualidade. Seus versos capturam o brilho das frutas, o ruído das conversas de rua e a luz dos letreiros, transformando o cotidiano em uma experiência de alta voltagem. Há uma entrega confessional em sua obra, um "ao pé do ouvido" que não teme o erotismo nem a crueza das histórias íntimas. Suas imagens são mísseis em voo reto: atingem o leitor com uma força que é, ao mesmo tempo, ácida e profundamente bela.
Ler esta reunião poética é acompanhar o combate alucinado de um coração que se recusa à banalidade. Melim nos prova que nada é frio ou tedioso quando mediado pela curiosidade e pelo desejo. Sua poesia é um convite à partilha do ar, à ousadia de partir ao meio a mesmice dos dias para encontrar, no ritmo mortal da beleza, a razão de estarmos vivos. É um resgate necessário de uma artista que soube, como poucas, transformar a vida inteira em matéria inflamável.
A Missão do Verso
"A guerra começou tem tempo / o coração / combate alucinado / no ritmo mortal da sua beleza." Angela Melim e a entrega absoluta à palavra.
Nesta obra, descobrimos que a poesia não observa a vida; ela se funde a ela, sem distinguir onde termina o indivíduo e começa a paisagem.