TODOS OS NOMES
Todos os Nomes
Uma busca obstinada pela identidade no labirinto da burocracia
Publicado em 1997, um ano antes de receber o Prêmio Nobel, Todos os Nomes é uma das obras mais metafísicas e melancólicas de José Saramago. O romance afasta-se das grandes alegorias sociais para focar na solidão absoluta de um indivíduo comum, mergulhado num cenário que remete ao absurdo burocrático de Kafka, mas com a marca inconfundível do humanismo saramaguiano.
O protagonista é o Sr. José, um amanuense solitário que trabalha na Conservatória Geral do Registo Civil, um edifício labiríntico que guarda as fichas de todos os vivos e mortos. O seu único passatempo é colecionar notícias sobre pessoas famosas. No entanto, por um acaso do destino, ele encontra a ficha de uma "mulher desconhecida" misturada aos seus papéis. Esta descoberta insignificante torna-se uma obsessão, levando o Sr. José a quebrar as rígidas regras da instituição para descobrir quem é essa mulher, transformando-o num detetive da alma alheia.
A narrativa é uma meditação sobre a memória, o esquecimento e a fragilidade dos nomes que nos definem. Saramago utiliza a Conservatória como uma metáfora para a própria vida e a morte, onde os papéis acumulados são o único rastro de existências que, de outra forma, seriam devoradas pelo tempo. É uma história de amor platônico e de transgressão, onde o Sr. José, ao procurar outra pessoa, acaba por se encontrar a si mesmo.
Reflexão Filosófica
Neste livro, Saramago explora o paradoxo de que só o Sr. José possui um nome próprio em toda a narrativa. Todos os outros são definidos por cargos ou relações. Isso reforça a ideia da individualidade perdida dentro da massa burocrática e a tentativa heróica, embora simples, de resgatar um rosto no meio da multidão de fichas.
A escrita é lenta e meticulosa, espelhando o ritmo de vida na Conservatória. É uma obra que convida ao silêncio e à introspecção, questionando o que sobrará de nós quando formos apenas um "nome" num arquivo empoeirado.